Coordenador do Instituto Gerando Falcões faz palestra para presas no Pará

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Aos 18 anos, Leonardo Moraes Precioso era jogador profissional e atuava em times como São Caetano, Corinthians e Palmeiras. Em abril de 2008, foi preso no momento em que "negociava" com os familiares de uma vítima de sequestro em São Paulo.

Leonardo Precioso tem 34 anos. Ele foi preso em 2008, após se envolver em um sequestro em São Paulo. Passou sete anos e 13 dias preso. Hoje é coordenador do projeto Recomeçar, do Instituto Gerando Falcões, ONG que reencaminha ex-presidiários para o mercado de trabalho. A organização promove também outras iniciativas ligadas ao esporte e à cultura e já impactou mais de 30 mil adolescentes em situação de vulnerabilidade social no Brasil. Ele está na capital paraense desde a quinta-feira, 14, para um encontro com mulheres presas no Centro de Recuperação Feminino (CRF), em Ananindeua.

"Estou aqui hoje para mostrar para estas mulheres que é possível você encontrar uma saída, mesmo já tendo passado pelo sistema prisional. Mover as pessoas e fazer com que elas possam transformar uma experiência negativa em algo positivo para as suas vidas é o meu trabalho. Através do Projeto Recomeçar, em parceria com empresários, instituições religiosas e órgãos públicos, beneficiamos ex-egressos para que possam ser recolocados no mercado de trabalho e auxiliamos para que possam reconstruir suas vidas", explica Leonardo Precioso.

Aos 18 anos, Leonardo Moraes Precioso era jogador profissional e atuava em times como São Caetano, Corinthians e Palmeiras. Em abril de 2008, foi preso no momento em que "negociava" com os familiares de uma vítima de sequestro em São Paulo. Acabou sendo condenado e viveu sete anos encarcerado.

Dez anos depois, ocupa uma posição que há alguns anos não poderia imaginar: a de motivar os egressos a buscarem um caminho diferente após o cárcere e acreditar que, a partir da sua própria mudança, é possível encontrar as portas abertas para o processo de ressocialização. "O que não pode faltar dentro de um ex-presidiário é a força de vontade de mudar a sua própria história e buscar um caminho longe do crime. Muitas portas se fecham, isso não há como negar, mas o importante é não desistir e insistir em ter outro caminho. Uma hora as portas certas irão se abrir", falou.

Ediane Souza, 38 anos, há três cumpre a sua pena dentro do CRF. Durante a palestra, a detenta se emocionou com a fala do ex-egresso, pois em vários momentos sentiu como se sua própria história estivesse sendo contada. "É muito difícil acordar aqui dentro e encontrar forças para acreditar, mas ele falou o que sinto, muitas vezes, quando penso em desanimar. Sempre digo para a minha família que quando sair daqui vou fazer uma transformação muito profunda na minha vida. Jamais voltarei a ser o que era antes de entrar aqui", afirmou.

A interna, que hoje trabalha como costureira na Cooperativa de Trabalho Arte Feminina Empreendedora (Coostafe) - a primeira Cooperativa de presas do Brasil - é também uma das professoras do Projeto "Tempo de Ler", realizado pela Superintendência do Sistema Penitenciário do Estado (Susipe).

"Quando cheguei aqui era uma pessoa sem perspectivas, mas fui procurando aprender tudo o que me foi proporcionado. Hoje, eu sei costurar, dou aulas para as outras internas e sei fazer pães e doces. Tudo isso vai ser usado quando eu estiver fora daqui. Quero muito também fazer um trabalho social, assim como o Leonardo, onde eu possa ajudar as pessoas, e assim como ele, ensinar o que eu nunca imaginei que fosse aprender estando presa", ressaltou a interna.

Para Gleice Silva, 35 anos, o encontro com o ex-presidiário que hoje promove palestras e incentiva outros egressos a entrar no mercado de trabalho, também despertou uma vontade de mudança. "Concluí meus estudos aqui dentro da casa penal e hoje estou me empenhando para poder passar no vestibular. Pretendo trabalhar como assistente social e quem sabe desenvolver um trabalho nessa área, que me coloque diante de alguém que tenha passado pelo mesmo tipo de experiência que passo e ajudá-la com mais vontade", disse.

A diretora do Centro de Recuperação Feminino de Ananindeua, Carmen Botelho, vê no encontro uma oportunidade de motivar, transformar e quebrar a crença da maioria das internas, de que após o cárcere, não existe um caminho para o mercado de trabalho. "Precisamos resgatar a auto-estima e o empoderamento dessas mulheres no retorno à sociedade. A vinda do Leonardo é um ganho muito grande para nós, especialmente para estas mulheres que precisam acreditar na sua própria mudança. Passar pelo que ele já passou e hoje estar na posição que se encontra só mostra a força e determinação que ele tem. Isso nos sinaliza que assim como ele, outros que estão aqui dentro também possuem essa força, que hoje pode estar escondida ou até mesmo adormecida pelas circunstâncias em que se colocaram", concluiu.

Por Walena Lopes | Foto: Akira Onuma (Ascom/ Susipe).