Mais de 50% das mulheres presas no Pará respondem por tráfico de drogas

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No Pará, o tráfico de entorpecentes é o segundo crime com maior incidência na população carcerária masculina, atrás apenas do roubo qualificado. Cerca de 15% dos homens presos respondem a processos pelos art. 12 da Lei 6.368/76 e art. 33 da Lei 11.343/06.

Aproximadamente 57% das mulheres presas, custodiadas pela Superintendência do Sistema Penitenciário do Estado (Susipe) respondem pelo crime de tráfico de drogas. De acordo com Levantamento de Informações Penitenciárias do Pará (Infopen), o Estado possui 945 presas, sendo 514 respondendo por esse tipo de crime. Deste total, 217 já foram sentenciadas por tráfico e outras 297 ainda aguardam julgamento.  

Se comparado ao Estado de São Paulo, por exemplo, o Pará tem um índice menor de mulheres que foram parar nos presídios em decorrência do tráfico de drogas. Um levantamento feito pela Secretaria de Estado da Administração Penitenciária de São Paulo (SAP-SP) 65% da população carcerária feminina do Estado responde por tráfico de drogas (o dado representa a soma das mulheres que ainda aguardam julgamento e as já condenadas pelo crime). O dado é de dezembro de 2017.

Segundo a diretora do Centro de Recuperação Feminino (CRF), em Ananindeua, Carmem Botelho, a maioria das mulheres entra para o mundo do crime por conta de seus companheiros.

“As mulheres presas por conta do tráfico de drogas são uma realidade cada vez maior no Brasil. Os relatos mais ouvimos dentro da penitenciária feminina são de presas que não têm recursos financeiros e profissionalização, por isso acabam ingressando na criminalidade, especialmente, o tráfico de drogas, por influência do marido ou são coagidas para proteger um parente preso.  Muitas se arriscam, mesmo as custas da própria liberdade”, informou a diretora.  

A detenta L.V, de 42 anos, era casada com um homem há mais de 20 anos, quando foi surpreendida pela polícia, dentro de sua casa. “Isso aconteceu em 2016. Estava em casa fazendo o almoço quando a polícia invadiu o local, dizendo ter recebido uma denúncia sobre traficando drogas e queriam falar com meu marido. Os policiais revistaram a casa toda e encontraram 50g de óxi dentro de um prato. Como meu marido não estava em casa, quem teve que responder fui eu”, disse.

De acordo com a detenta, quando ela começou o relacionamento com o marido, ele tinha envolvimento com drogas, mas teria prometido mudar de vida. Ela acreditou e, por muito tempo, disse que o casal viveu tranquilo, sem problemas com a polícia.

“Ele me prometeu mudar e eu nem desconfiava que ele tinha voltado a essa vida, porque ele estava muito tranquilo, quase não saía de casa. E o pior foi quando fui presa. Ele nem sequer foi na delegacia e muito menos veio aqui no presídio me visitar. Hoje em dia ele está por aí em liberdade e nunca mais o vi. Eu só recebo visita da minha filha. Ele é o pai dos meus filhos, mas quando sair daqui quero outra vida. Eu sei, todo mundo merece uma segunda chance, mas não confiaria nele outra vez. Só eu sei do meu aqui, longe de quem amo. Tenho uma neta e perdi toda a fase de crescimento dela, fora os meus filhos que estão aí pelo mundo, isso é mais difícil para quem é mãe”, relatou emocionada a detenta.

Para o futuro, L.V pretende apenas reconstruir a vida e tentar reunir novamente os filhos. “Quando sair daqui, quero apenas trabalhar e ajudar meus filhos a levar uma vida digna, pois até agora eles não tiveram um bom exemplo e isso é o principal para formação deles. Tenho muita mágoa do meu marido, por ele ter deixado eu vim parar aqui. Ele estava presente na audiência de custódia e disse ao juiz não ser o dono da droga e que não estava lá, então acabou sobrando para mim, sou eu quem está aqui. Estou pagando por um erro que não cometi, mas apesar da mágoa, não tenho mais ódio no coração”, disse a interna.

Com uma história de vida parecida com a de L.V, a detenta M.S, de 35 anos, também está custodiada no CRF e diz estar pagando por um erro cometido pelo companheiro.

“Em 2012, conheci um rapaz e decidimos morar juntos. Em quatro meses, começaram umas ligações estranhas para ele, eu não sabia do que se tratava, pensava até estar sendo traída, até a polícia bater na minha casa. Estava apenas eu e meus três filhos. Os policiais pediram para revistar a casa e encontraram cocaína, balança de precisão, entre outros produtos. Meu companheiro não estava em casa e acabei detida no lugar dele. Meu filho menor não tinha nem um ano de vida e a maior estava com 14, eles todos tiveram que ver a mãe sendo levada no camburão da polícia”, revelou a detenta.

O marido de M.S está em liberdade e depois dela ter sido presa, nunca mais a procurou. “Ele já tem até outra família e nunca mais nos vimos e nem quero ver, quero distância, por causa dele vou ficar 11 anos separada dos meus filhos, impedida de vê-los crescer, de tentar dar o meu melhor a eles. Hoje quem está com essa responsabilidade é minha mãe, mas são cinco crianças e ela já é uma senhora, é muito pesado. Mas se Deus quiser vou sair antes desse tempo estipulado, porque trabalho aqui dentro e faço tudo o que posso para ir diminuindo minha pena. Me arrependo muito de ter me envolvido com ele e, principalmente, de ter confiado em alguém que mal conhecia, hoje faria tudo diferente. Jamais deixaria alguém acabar com a minha vida como ele fez”, disse a interna.

No Pará, o tráfico de entorpecentes é o segundo crime com maior incidência na população carcerária masculina, atrás apenas do roubo qualificado. Cerca de 15% dos homens presos respondem a processos pelos art. 12 da Lei 6.368/76 e art. 33 da Lei 11.343/06.

Por Giullianne Dias | Foto: Akira Onuma (Ascom/ Susipe).